As feiras do concelho de Matosinhos

Extinção das feiras é uma ameaça para a etnia cigana

 

Líder da Associação Ciganos de Matosinhos garante que tudo fará para que as feiras existentes, no concelho, nunca acabem. Porém, ao longo dos tempos, assistimos à extinção de algumas feiras.

 

Ao longo dos últimos tempos tem corrido alguma tinta sobre a extinção de algumas feiras no nosso país. Situação, essa, que ameaça a sobrevivência da etnia cigana, uma vez que fazem da venda ambulante o seu principal ganha-pão.

 

Desde os mais novos aos mais velhos, trata-se de uma comunidade que desde cedo se adapta à vida de feirante e faz dela o seu único meio de vida.

 

O concelho de Matosinhos não é excepção e temos ao longo dos anos assistido à perda de tradições de algumas feiras - embora em pequeno número - e à sua respectiva extinção. O "Matosinhos Hoje" tentou conhecer a realidade do concelho a este nível e detectou que apesar das poucas feiras existentes no concelho, têm grande afluência de cidadãos. No que respeita à presença dos ciganos observamos que umas contam com maior número que outras.

 

No concelho de Matosinhos, existem três feiras/mercado: Custóias, Senhora da Hora e Leça do Balio. A feira da Santana, em Leça do Balio é uma feira existente, há muitos anos, conhecida por todos os cidadãos. Embora continue com alguma afluência, é de referir que ao longo dos anos tem vindo a diminuir. Leça do Balio é uma freguesia que para além desta feira semanal, mantém há algumas dezenas de anos três feiras anuais. Concretamente a feira de São Miguel, realizada no primeiro domingo de Outubro; a feira de Santana, que se realiza no dia 26 de Julho e a feira de São José, realizada no dia 19 de Março ou no domingo seguinte. Tratam-se de feiras com uma tradição enraizada em que algumas têm venda específica. No caso de São José é muito frequente a venda de árvores, São Miguel é a venda de nozes, enquanto a Santana se trata de uma feira franca.

 

Custóias é uma das freguesias de Matosinhos bastante conhecida pela sua feira semanal de sábado à tarde. Inicialmente realizava-se no Largo do Souto, mas a partir de 1985 passou para o actual local no parque de estacionamento. Esta mudança deveu-se também, ao aumento da presença de feirantes ao longo dos tempos. Há, ainda, quem considere a feira da Senhora da Hora como a maior do concelho. Certo é que todos os sábados de manhã as artérias circundantes ao Largo Dr. João Gomes Laranjo entopem por completo. Carros e carros estacionados nas ruas e até na berma do IC1 (futura A28), cidadãos rumando à feira e o próprio recinto recheado de feirante e clientes é o cenário que se encontra numa manhã de sábado na zona. De referir que esta feira começou, à semelhança da feira de Custóias, num local exíguo, tendo mais tarde passado para o actual largo. Ao que conseguimos apurar, nesta feira com algumas dezenas de anos, tem vindo a aumentar o número de ciganos.

 

No espaço onde actualmente encontramos a nova centralidade, em S. Mamede de Infesta, realizou-se em tempos uma feira ao ar livre. Porém, com a construção do equipamento extinguiu-se tendo passado a venda apenas para o mercado, onde o espaço diminuiu. De acordo com o presidente da Junta de S. Mamede de Infesta a presença da etnia cigana no mercado tem originado alguns problemas. Não querendo tecer mais comentários sobre a situação alerta, apenas, que "não há discriminação".

 

Em tempos, existiu, também, a feira do Conde, que se realizava no último domingo de cada mês. Foi perdendo tradição e chegou mesmo a acabar.

 

Na freguesia de Lavra, mais concretamente em Angeiras, houve recentemente intervenção policial durante dois ou três domingos consecutivos no sentido de acabar com a venda ambulante em redor do mercado. De acordo com o presidente da Junta, Rodolfo Mesquita, foi "assinado no passado sábado o protocolo que tornou legítima a venda dos ciganos no antigo mercado de Angeiras". O presidente da junta lembrou os tempos em que os ciganos vendiam nas zonas envolventes ao actual mercado, justificando que com a abertura de melhores condições foi proibida a venda nas ruas. Rodolfo Mesquita referiu, ainda, que se tratava de uma venda sem medidas e de grande expansão. No sentido de proporcionar a compra de artigos a preços mais baixos possibilitaram a instalação de alguns feirantes de etnia cigana no antigo mercado. "Os vendedores ambulantes deixam de existir sendo, assim, integrados", referiu o presidente da junta acrescentando que há 46 registos de bancas.

 

Guifões, Perafita, Santa Cruz do Bispo e Leça da Palmeira são as freguesias de Matosinhos onde não existe, nem nunca existiu algum tipo de feira. Saliente-se que em Matosinhos é realizada a Feira dos Golfinhos, no quarto domingo do mês, no parque Basílio Teles.

 

Líder da associação

 

Contactado pelo "Matosinhos Hoje", o Líder da Associação Ciganos de Matosinhos, Manolo, garantiu que as feiras são o único meio de sobrevivência da etnia cigana e que a longo dos tempos têm procurado as melhores. Sobre a extinção das feiras adianta que não faz sentido nenhum acabar e "só trarão mais crise". "A Associação de Matosinhos fará tudo o que tiver ao seu alcance para que as feiras nunca acabem", confessou o líder Manolo. Em relação à presença dos ciganos de Matosinhos nas feiras do concelho Manolo explicou que a feira da Senhora da Hora é a que possui um maior número. "90 por cento dos ciganos são de Matosinhos", informou adiantando que em Custóias, Angeiras e Santana são em número mais reduzido. "Em Custóias apenas temos dois ou três ciganos matosinhenses. Temos alguns problemas com os lugares nessa freguesia que estão prometidos há cerca de 5 ou 6 anos", referiu o líder da Associação. Segundo o próprio existem mais de cinco centenas de ciganos no concelho de Matosinhos.

 

Encontro Coimbra

 

No passado mês de Novembro, na abertura do encontro "Educação, Formação nas Comunidades Ciganas", em Coimbra, este tema foi abordado pelo secretário de Estado adjunto do Ministro da Presidência, na medida em que afirmava, também, que "o desaparecimento das feiras e mercados está a ameaçar a sobrevivência da comunidade cigana".

 

Feliciano Barreiras Duarte, intervinha durante o encontro organizado pelo Centro de Estudos Ciganos, que decorreu na Casa Municipal da Cultura de Coimbra, e afirmou que a necessidade de "estudar o enquadramento legislativo da venda ambulante", decisiva para a "sobrevivência de uma forma de estar cigana", foi recentemente defendida por um grupo de trabalho criado no âmbito do Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas.

 

O governante citou, a propósito, um relatório do comissário europeu dos Direitos Humanos, Gil Robles, onde descreve a extinção gradual das feiras e mercados "como o maior desafio que se coloca à sobrevivência da comunidade cigana roma em Portugal". Nesse sentido, refira-se que dezenas de munícipes do Porto assinaram no dia 30 a Carta de Venda Ambulante.

 

Trata-se de uma carta que "representa um primeiro movimento no sentido de procurar respostas específicas para os problemas da comunidade cigana", salientou o secretário de Estado adjunto do Ministro da Presidência. Na opinião deste governante, actualmente, as mudanças ao nível da educação e formação nas comunidades ciganas "passam muito pelo papel das mulheres". "Mais do que em qualquer outra comunidade com características de endogamia, a educação e a formação são, entre os roma muitas vezes, a única oportunidade das crianças do sexo feminino poderem criar meios e massa crítica para fazerem as suas opções de vida", acrescentou.

 

De acordo com o último estudo, realizado em 2001, pelo Gabinete do Ensino Básico do Ministério da Educação, o romani é a terceira língua materna dos estudantes portugueses do ensino básico, logo a seguir ao português e ao crioulo. Por outro lado, Barreiras Duarte salientou que o "romani é, segundo o mesmo estudo, falado por 1338 alunos do ensino básico".

 

Por outro lado, o relatório de Gil Robles menciona a concorrência, nos últimos anos, de "incidentes isolados" de discriminação dos ciganos em Portugal, protagonizados por "agentes do poder local", e realça que os roma "continuam a ter dificuldades no que diz respeito à habitação, emprego e, ocasionalmente, nas suas "relações com a polícia".

 

Carta de princípios

 

No ano passado o Alto-comissário para a Imigração e Minorias Étnicas escreveu uma carta de princípios onde defendia a atribuição de mais condições para que a comunidade cigana pudesse exercer a actividade de venda ambulante. O documento indicava a "emissão e renovação de cartões" para o efeito e ser "orientada pelo principio da criação de oportunidades de inclusão da comunidade cigana".

 

O mesmo documento referia que esta deve ser uma profissão legítima, que também obriga a deveres e direitos. Refira-se, o dever "de recusa de venda de produtos ilegais, contrafeitos, falsificados ou em mau estado", o dever de cumprimento das obrigações fiscais", o "dever de defesa do consumidor" e o "dever de respeito pelas regras da concorrência legal".

 

 

Algumas Feiras de Matosinhos

 

Feiras semanais

Custóias - Sábado à tarde

Senhora da Hora - Sábado de manhã

Leça do Balio - Sexta-feira

 

Feira mensal

Matosinhos - Feira dos golfinhos (4º domingo do mês no parque Basílio Teles)

 

Feiras Anuais

Leça do Balio - São Miguel (1º domingo de Outubro)

Leça do Balio - Santana (26 de Julho)

Leça do Balio - São José (19 de Março ou domingo seguinte)

 

 

Por: Natércia Ribeiro in Matosinhos Hoje edição de 15-12-04

 

 

Voltar atrás

 

Webmaster: Hugo Costa 2003