Mistério em Custóias (Matosinhos) espera resultados laboratoriais e de investigação policial

Cadeia sem explicações para três reclusos mortos e dois internados

 

Ninguém arrisca uma explicação definitiva para a morte de três reclusos, na cadeia de Custóias, em Matosinhos, nem para as causas que levaram outros dois a ficar internados no Hospital de Pedro Hispano, naquela cidade. O que se sabe é que, depois de dois presos terem sido encontrados mortos, na manhã da passada sexta-feira, ontem os guardas prisionais depararam-se com um terceiro cadáver. "Todos estavam na posição de dormir", disse, ao JN, a porta-voz da Direcção-Geral dos Serviços Prisionais, Assunção Júdice.

 

Os reclusos tinham entre 30 e 37 anos, estavam em celas separadas (dois em celas duplas e um em camarata), eram toxicodependentes e integravam um programa de tratamento com metadona. Nenhum evidenciava, segundo o director da cadeia, Paulo Moimenta de Carvalho, sinais de agressão. A hipótese de consumo ilegal de drogas sintéticas dentro do estabelecimento é, todavia, admitida por aquele responsável (ler caixa). A Polícia Judiciária está já a investigar o caso.

 

Idêntica situação vivem os dois reclusos que foram hospitalizados depois de se terem sentido mal na cadeia, alegadamente com paragens respiratórias. Um dos internados entrou no Hospital Pedro Hispano na sexta-feira, dia em que ocorreram as duas primeiras mortes. O segundo entrou ontem, após o terceiro morto ter sido encontrado. Foi reanimado dentro da cela e está consciente.

 

Mistura fatal

 

Paulo Moimenta de Carvalho reconhece "mistério" nos casos, sobretudo porque "ninguém deu por nada" (as mortes terão ocorrido durante a madrugada) e porque, garante, todos os reclusos que são tratados com metadona são alvo de análises de despiste de administração de "outras substâncias estupefacientes", nomeadamente "haxixe, cocaína e heroína". A mistura de metadona com outras drogas poderá ser fatal, mas, conforme disse à SIC, nem os testes feitos, no hospital, aos dois reclusos internados podem levar à conclusão de um relacionamento entre metadona e outro estupefaciente.

 

As explicações poderão ser encontradas, dentro de cerca de duas semanas, com os resultados dos exames laboratoriais (de patologia e toxicologia) pedidos, ontem, pelo Instituto de Medicina Legal. São esses exames complementares que poderão tirar dúvidas sobre a eventual mistura entre metadona e outros alucinogénios sintéticos. As autópsias a dois reclusos, disse o director do Instituto Nuno Vieira, foram inconclusivas. A terceira terá lugar hoje.

 

Os pontos comuns entre os dois reclusos que morreram na sexta-feira está no facto de se tratar de homens que respondiam pelo crime de furto. A diferença é que um já estava a acabar uma pena de um ano. O outro era preso preventivo, situação igual às dos restantes detidos envolvidos.

 

Recuperação questionada

 

"Há, muitas vezes, pouco cuidado nos rastreios feitos a reclusos que entram nos programas de tratamento com metadona. O preso pode ser dependente de drogas dificilmente despistadas e a mistura, que não tem nada a ver com a dosagem, simbolizar fatalidade", disse, ontem, ao JN, um médico, que não quis identificar-se. O uso de metadona já havia sido questionado, na edição de ontem do "Público", pelo presidente do Sindicato dos Guardas Prisionais, Manuel Carvalho, que defendeu a "revisão de métodos nos programas". Os reclusos mortos na sexta-feira tinham recebido, "com acompanhamento médico, tratamento de metadona, na quinta-feira de manhã.

 

Margarida Fonseca

 

"Pode haver drogas sintéticas que escapam"

 

"Com cerca de 500 pessoas a entrar, quase diariamente, no Estabelecimento Prisional de Custóias, é natural que o controlo não seja o que deveria ser e que haja drogas, sintéticas, que escapem". A afirmação é do director da cadeia, Paulo Moimenta de Carvalho, que admite "existirem, hoje, comprimidos à solta", alucinogénios que não são facilmente despistados em testes, ao contrário do haxixe, da heroína e da cocaína. No entanto, o responsável diz que é "preciso esperar pelos testes complementares, pedidos pelo Instituto de Medicina Legal, para chegar a conclusões". O director afirmou, ainda, que, ontem, os reclusos que recebem tratamento com metadona foram contactados não "só para saberem dos perigos que correm, como também para se tentar perceber o que se terá passado". A cadeia de Custóias tinha, em Agosto passado, 961 reclusos, quando a lotação é de 686.

 

 

Por: N/D in Jornal de Notícias edição de 20-12-05

 

 

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