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Bastonário dos Advogados anuncia
criação de gabinete jurídico para reclusos necessitados
Projecto inovador em Custóias
Os reclusos carenciados vão ter acesso a apoio jurídico gratuito. O
protocolo entre a Ordem dos Advogados e o Ministério da Justiça foi já
formalizado. O projecto-piloto deverá arrancar ainda este ano e Custóias
será uma das primeiras cadeias do Norte a ter um gabinete do género.
O bastonário da Ordem dos Advogados
(OA), José Miguel Júdice, anunciou, sexta-feira, a criação de
gabinetes de apoio jurídico gratuito em estabelecimentos prisionais. O
também presidente da Comissão de Direitos Humanos da OA falava no
final de uma visita ao Estabelecimento Prisional do Porto, em Custóias,
Matosinhos, que deverá ser um dos primeiros cinco a receber um
gabinete onde os advogados prestarão consultas ambulatórias de
assistência jurídica a detidos carenciados.
Os primeiros gabinetes serão
criados ainda este ano, mas Júdice escusou-se a precisar onde e quando
serão inaugurados. "Não quero prometer nada, porque as pessoas estão a
sofrer. O processo tem que ir devagar, pois há muito trabalho a
fazer", afirmou, sublinhando o "empenho do Ministério da Justiça e da
Ordem dos Advogados". Para já foi formalizado um protocolo entre as
duas entidades e brevemente terão início cursos de formação em direito
penitenciário para juízes e advogados.
O director do Estabelecimento Prisional do Porto, Hernâni Vieira,
salientou a necessidade de o exterior encarar "a instituição prisional
no seio de outras instituições públicas, pois os seus problemas são de
toda a sociedade".
"Os advogados não podem demitir-se desta função", acrescentou o
director prisional, enaltecendo a "criação de salas de apoio
judiciário para reclusos pobres que não têm voz".
Júdice chocado
"É preciso investir mais nas prisões e na Justiça. Os reclusos têm
problemas iguais aos nossos e merecem uma oportunidade", sustentou
Júdice no final da visita à Cadeia de Custóias, acrescentando que "o
problema não é falta de empenhamento, mas sim de recursos".
Júdice reafirmou a necessidade de "acelerar mais a Justiça" e voltou a
criticar o excesso de prisão preventiva que existe em Portugal,
referindo casos de alguns reclusos de Custóias, que estiveram meses ou
mesmo um ano sem ser ouvidos.
Apesar do "choque brutal" que diz sofrer sempre que visita uma cadeia,
Júdice afirmou que o estabelecimento prisional de Custóias "tem
condições menos más do que outros que já visitou, como os de Monsanto
ou Alcoentre". Como aspecto negativo desta visita, referiu "os
problemas de saúde de alguns reclusos, que deveriam estar num hospital
e não na cadeia".
O Programa de Formação Profissional da cadeia de Custóias foi um dos
aspectos positivos salientado pelo bastonário, que realçou também a
solidariedade e o empenhamento de guardas e reclusos para melhorar as
condições da cadeia.
Mostrou-se particularmente agradado com o caso de um detido que fora
condenado por não pagar uma multa e que foi libertado no Natal, pois
os reclusos e os guardas organizaram uma colecta para pagar a dívida.
Detidos
Formação e ensino
Cerca de 700 reclusos de Custóias estão a frequentar programas de
ensino e formação profissional. Segundo Hernâni Vieira, "alguns chegam
a propor-se para frequentar cursos universitários, e Direito é o curso
mais procurado". Os detidos aprendem também carpintaria, jardinagem,
padaria, informática, entre outras áreas.
O pão e os legumes são
depois vendidos no bar da cadeia, onde são muito procurados pela
vizinhança. "Os produtos são de boa qualidade e mais baratos",
garantiu o director da cadeia, acrescentando que os reclusos produzem
40 toneladas de legumes por ano.
Na cadeia de Custóias, construída para acolher 720 reclusos, estão
actualmente detidos cerca de mil, 50 dos quais são mulheres.
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