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Polémica: Rancho
Folclórico de S. Tiago de Custóias vai ficar sem sede
Essencialmente, uma questão de família
O Rancho Folclórico de S. Tiago
de Custóias está na eminência de ficar sem a casa que lhe serviu de
sede desde a década de sessenta. Um caso polémico que tem indignado a
população, principalmente contra a família Barbosa, uma das fundadoras
do rancho, e que está no centro de todo este enredo. Emília Maria
Fradinho é uma das descendentes dos fundadores do grupo e contou ao
Matosinhos Hoje a versão até agora publicamente desconhecida que levou
a que a sua família exigisse a devolução do edifício em causa.
A fundação deste rancho data de 1953 quando António
Barbosa e seu filho juntam na sua casa um grupo de jovens da época
para ali se realizarem os ensaios do rancho. Entretanto, o grupo foi
percorrendo algumas casas da terra até que, sentindo falta de uma casa
para o rancho e dando seguimento ao gosto que tinham ganho pelo grupo,
António Barbosa resolve construir uma sede em terrenos seus, com
materiais e mão de obra sua. "A minha avó conta-nos que, na altura,
até chegou a passar necessidades", salientou-nos Emília Maria Fradinho.
Com madeira vinda das suas terras, com pedras da sua pedreira e com
mão de obra paga por si, António Barbosa lá pôs a tão ambicionada sede
de pé.
Foi em 1970 que se fez o primeiro contracto de arrendamento (que está
vigente até hoje). O contracto foi verbal, mas sempre foi cumprido por
ambas as partes. Ficou também escrito em acta de reuniões feitas no
rancho que a sede passaria para a posse do grupo quando ela tivesse
dinheiro suficiente para a adquirir, facto que nunca se veio a
verificar. Até que o rancho pudesse comprar a sua sede, esta ficaria
no nome do seu fundador. Facto que o Rancho Folclórico de S. Tiago de
Custóias contestou em tribunal, alegando que este registo foi feito de
má fé. "Ficamos desgostosos, porque não foi isso que se passou. O meu
avô registou legitimamente a sede em seu nome até que o rancho tivesse
dinheiro para a adquirir. E isso ficou provado, através das actas do
rancho." Emília Maria Fradinho lamenta essencialmente "que se tenha
manchado o bom nome da família Barbosa" e aponta este como principal
motivo que a leva a querer que a acção de despejo decorra o mais
rápido possível.
Acção em tribunal
Uma acção de despejo que foi devidamente fundada pela família Barbosa.
Continuando a contar a história... Em 1975 é eleita uma lista para a
direcção do rancho que deixa de fora os fundadores do grupo. A partir
daí, o único elo de ligação entre a família Barbosa e a direcção do
grupo resumia-se à normal relação entre senhorio e inquilino. Aliás,
funções que ambos cumpriram sempre. Durante algum tempo, a sede serviu
para teatro e cinema. "Aliás, foi com esse objectivo que a sede foi
construída: parte para ensaios e outra parte para casa de
espectáculos. Mas com a condição de ser sempre ao serviço do rancho."
Há cerca de uma década atrás, as dificuldades económicas pelas quais
estava a passar o rancho custoiense fizeram com que sentissem
necessidade de rentabilizar a sua sede de forma a conseguir algumas
verbas extra. "Verdade seja dita, da primeira vez pediram autorização
ao meu pai. Queriam instalar lá uma discoteca." Autorização dada, a
discoteca lá foi instalada em parte da sede. Mas não durou muito tempo
e o espaço voltou a ficar vazio. "Passado algum tempo, veio parar às
nossas mãos um panfleto que anunciava um restaurante lá na sede." Para
a instalação deste restaurante a família Barbosa não teve qualquer
pedido de autorização. Pensaram o que poderiam fazer mas, quando
decidiram interpor processo no tribunal o restaurante fechou. Mas, as
cedências de parte da sede do rancho para outras actividades não se
ficaram por aqui. Seguiu-se um café. Também neste caso enquanto a
família legítima proprietária do espaço se preparava para pedir
satisfações em tribunal, o dito café encerrou portas. Por último, o
espaço foi utilizado para armazém de materiais eléctricos. Com
celeridade, a família Barbosa partiu para tribunal. "É que, para além
de subalugarem o espaço, fizeram obras na fachada poente. Por dentro,
a estrutura também foi alterada. Obras para as quais nunca fomos
chamados a pronunciar." Entretanto, também o armazém foi encerrado.
Ficou o processo contra o rancho.
Em tribunal, a direcção do rancho alegou que era o dono da sede e que
a família Barbosa tinha registado o edifício no seu nome de forma
ilícita. Tal afirmação indignou esta família, o que fez com que
quisessem levar o processo até ao fim. Aliás, durante todo o processo
não houve qualquer tentativa de reconciliação. Só às portas do
julgamento é que surge uma tentativa de resolver o assunto.
"Apareceram em casa dos meus pais pedindo perdão pelo que tinham dito.
Que a sede era realmente nossa e que assinariam tudo o que fosse
necessário, desde que retirássemos a queixa." No entanto, os Barbosa
acharam que o nome da família tinha sido posto em causa e sentiram
necessidade de fazer prova da verdade em tribunal. Avançaram, assim,
com o processo. Depois de todos os argumentos apresentados de parte a
parte, o tribunal deu razão à família Barbosa, declarando-a como
legítima proprietária do edifício em causa, decretando também que,
mediante os incumprimentos contratuais provados, havia razão para a
acção de despejo.
A família Barbosa, reposta a verdade, encontra-se agora satisfeita. "A
justiça funciona bem. Não tememos a verdade e, como tal, estivemos
sempre serenos e plenamente convictos de que esta questão teria um fim
que, nem para todos, foi o desejado mas que se apresentava como o mais
justo e plausível." Assim, Emília Maria Fradinho considera que o nome
do avô "ficou limpo de uma mancha causada pela actual direcção do
rancho." Um facto que abalou principalmente a esposa do fundador do
rancho, ainda viva com os seus 92 lúcidos anos. "Teve de suportar,
nesta avançada idade, uma afronta à integridade e ao bom nome de
família Barbosa." Assim, apesar de lamentarem o facto do rancho que a
família fundou ficar sem casa, querem levar tudo até ao fim. Neste
sentido, o pedido de execução do despejo já foi pedido. A qualquer
momento, o Rancho Folclórico de S. Tiago de Custóias vai ser colocado
fora da sua casa dos últimos anos. Para além de ficarem sem local para
ensaiar, vão também ficar em mãos com o espólio que têm no museu ali
também instalado.
De salientar que, desde 1996, que a autarquia matosinhense fala na
construção de uma nova sede para o rancho. Até hoje, e apesar de
sucessivas promessas, periodicamente renovadas, nada tem sido feito.
Agora, o rancho vai ficar sem casa.
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