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Rusga
revolta guardas e presos
A revolta está instalada na cadeia de Monção. Reclusos e guardas
sentem-se humilhados pela forma como uma força da Guarda Prisional de
Custóias invadiu a sua "casa". Várias queixas já seguiram para a ministra
da Justiça e provedor de Justiça. Para os Serviços Prisionais foi uma
rusga "normal".
Guardas e reclusos do
Estabelecimento Prisional de Monção acusam uma força da Guarda
Prisional de Custóias de ter actuado de uma forma "humilhante e
ilegal" quando passou aquela cadeia a pente fino, alegadamente à
procura de droga. "Invadiram a cadeia armados até aos dentes, ignoram
os nossos guardas prisionais e obrigaram os reclusos todos a
despirem-se uns à frente dos outros, o que é perfeitamente ilegal",
disse um dos 50 reclusos de Monção, que pediu anonimato por medo de
sanções disciplinares.
De acordo com este
recluso, os "invasores" estavam armados com cassetetes, gás
lacrimogéneo e um aparelho para descargas eléctricas, "e não olharam a
meios para atingir os fins, tendo vasculhado tudo", numa atitude que
mais parece digna "do tempo da PIDE". "Parece que estavam à espera que
isto fosse o Casal Ventoso e que iam aqui encontrar droga aos quilos,
mas tudo o que conseguiram apreender foi um telemóvel", acrescentou.
Actos selvagens
A operação surpresa decorreu no sábado, quando 25 guardas prisionais
de Custóias, comandados pelo inspector coordenador da Delegação Norte
do Serviço de Auditoria e Inspecção, "invadiram literalmente" a cadeia
de Monção, à procura de droga, "humilhando os reclusos e os guardas do
estabelecimento". Por isso, os reclusos de Monção já escreveram à
ministra da Justiça, ao provedor de Justiça, à Direcção-Geral dos
Serviços Prisionais (DGSP) e à Ordem dos Advogados, denunciando estes
"actos selvagens" e garantindo que não haverá cadeia que lhes prenda a
voz sempre que a sua dignidade "seja violada".
Na missiva, a que «O Primeiro de Janeiro» teve acesso, os reclusos
dizem que os seus haveres foram tratados como "simples lixo" e que até
lhes foram apreendidos pequenos pacotes de sumos que lhes são
distribuídos como reforço, pequenas tesouras que há vários anos são
utilizadas na confecção de tapetes de Arraiolos e pequenas ripas de
madeira destinadas a fazer prateleiras.
"Será que estes senhores que não conseguem acabar com o lixo da casa
deles [cadeia de Custóias] querem limpar a casa dos outros onde não
lixo, ou será que este tipo de serviço foi encomendado por alguém?",
questionam.
Reclusos ou animais?
Uma dúvida que é também partilhada por, pelo menos, dois guardas da
cadeia de Monção, que escreveram à DGSP dando conta da sua revolta por
esta "sanha persecutória" que "visa em primeira mão achincalhar e
diminuir os funcionários e as chefias" do estabelecimento. "Não tenho
dúvidas que, por detrás disto tudo, está um subchefe que já cá esteve
e que está interessado em vir novamente para cá, mas para dirigir a
cadeia. Quis fazer passar a ideia que a cadeia está a ser mal dirigida
e que os guardas prisionais aqui colocados são uns incompetentes, mas
teve azar, porque de droga nem uma grama encontraram", disse um guarda
prisional de Monção.
Na missiva dirigida à DGSP, os subscritores acusaram os guardas de
Custóias de, além de os coagir e impedir de fazer qualquer comunicação
às chefias, terem tratado os reclusos como animais, "tendo-os
revistado em completa nudez e na presença de todos, em clara violação
da lei".
O recluso Rui Pereira, que tem dupla nacionalidade, escreveu mesmo ao
cônsul americano em Lisboa, denunciando a "forma animalesca e
arbitrária" como foi tratado pelos guardas de Custóias, que até lhe
apreenderam o seu computador pessoal, "que está devidamente autorizado
pelo director da cadeia". "Senti-me abaixo de cão, fui extremamente
humilhado, passei por várias cadeias e nunca vi nada disto", referiu
Rui Pereira.
O silêncio é de ouro
O «Janeiro» tentou ouvir o director do Estabelecimento Prisional de
Monção, Francisco Costa, mas este escusou-se a prestar quaisquer
declarações, por alegadamente "não poder falar" sem autorização da
DGSP. Ficou, assim, por esclarecer se esta rusga tinha sido
previamente anunciada à direcção da cadeia ou se, como afirmam guardas
e reclusos, foi feita de surpresa e ao fim-de-semana precisamente
aproveitando o facto de lá não se encontrar nenhum membro da direcção.
Posteriormente, e apesar das várias insistências, foi impossível obter
mais esclarecimentos das Relações Públicas da DGSP, nomeadamente
acerca dos resultados da rusga, porque o responsável daquele serviço
mostrou-se sempre incontactável.
Sindicato
"Acerto de contas"
Uma fonte do Sindicato Nacional do Corpo da Guarda Prisional já
admitiu ao «PJ» que poderá agir criminalmente contra o mentor e os
autores desta "violenta e tenebrosa investida" na cadeia de Monção,
"que, além de atentar contra os direitos dos reclusos, pôs também a
causa a dignidade dos guardas locais". "Soa a acerto de contas entre
guardas prisionais e chefias dos estabelecimentos de Viana do Castelo
e Monção, mas alguém terá que pagar por isto", acrescentou a fonte
sindical. |