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Uma dura realidade
que marca os familiares dos reclusos
Vidas que também vivem na prisão
A detenção dos seus
familiares faz com que as suas vidas estejam, também, de certa forma
presas à realidade pura e crua. Ao longo dos anos, as visitas passam a
ser uma rotina. Mas, o sofrimento e a revolta nunca se apagam.
Quer queiramos ou não alguns
familiares dos cidadãos detidos em estabelecimentos prisionais têm de
certa forma uma vida presa. Pois, na verdade, encontram-se presos a
uma realidade que não foi escolha própria, mas uma constatação, face a
determinado comportamento, atitude ou facto. Quantas pessoas se
deparam com a prisão de um familiar ou mesmo amigo de um dia para o
outro ou mesmo de uma hora para a outra?
A resposta é, infelizmente, impossível de
contabilizar, mas pode ser apontada para milhares de pessoas. Ao longo
dos tempos as visitas efectuadas durante a semana e o próprio
acompanhamento do processo fazem com que o elo de ligação seja cada
vez mais forte com aquela realidade e a determinada altura a presença
nas cadeias e o sofrimento aliado já são acontecimentos normais de uma
rotina.
Em Matosinhos existem dois estabelecimentos prisionais (a partir de
Janeiro passarão a ser três com a abertura da cadeia feminina de Santa
Cruz do Bispo) onde esta realidade é constatada no dia-a-dia.
Concretamente referimo-nos ao estabelecimento Prisional de Custóias e
de Santa Cruz do Bispo. O Matosinhos Hoje fez uma visita exterior às
duas cadeias, no sentido de contactar com alguns familiares dos
detidos. De referir que alguns dos nomes referidos são fictícios, uma
vez que foi opção dos próprios entrevistados. Tratando-se de um
assunto delicado como este, respeitamos as suas decisões. Uma questão
de ética.
O cenário foi algo possível de imaginar, mas não em tão elevadas
proporções. São rostos completamente abatidos e muitas vezes sem
expressão. Depreende-se que a tristeza se apoderou de alguns daqueles
cidadãos e abafou todos os momentos felizes passados até então. "Ter
um familiar preso não é fácil", desabafou um familiar antes da hora da
visita acrescentando que esta realidade só é possível de imaginar por
quem passa ou já passou pelas situações.
A época festiva em que estamos deixa transparecer uma maior
sensibilidade. Por muitas palavras de conforto e esperança que sejam
proferidas a alguns familiares e amigos dos cidadãos reclusos é
difícil ou mesmo impossível, por vezes, "arrancar" um pequeno sorriso.
As faces cansadas da rotina do dia-a-dia e o semblante carregado foi o
que podemos constatar em alguns cidadãos que ao fim e ao cabo também
possuem uma vida presa àqueles que amam e que por diversas razões os
acompanham de pedra e cal até ao final da pena e respectivo momento de
liberdade.
"Acordo todos os dias a pensar no meu filho de 28 anos que se encontra
preso há alguns anos. Sei que tem que pagar pelas asneiras que fez,
mas para a família é duro de mais", afirmou a Maria (nome fictício).
Ao lado encontrava-se o João (nome fictício), que conforme nos
confessou tem um familiar preso há cinco anos. "Estes anos têm sido um
inferno. Ao longo do tempo pensei que me iria adaptar e isso
aconteceu, mas tenho a percepção que eu próprio me tornei numa pessoa
mais fria devido a esta situação", afirmou acrescentando que todos os
momentos são marcantes. A ocasião da notícia da detenção é
"frustrante", tal como os dias que se seguem até ao julgamento. A
própria hora do julgamento é uma "ansiedade" e o resultado é mesmo o
"pior" quando é decretado que o seu familiar ou amigo terá que cumprir
uma pena de prisão.
"Quando recebi a notícia estava a trabalhar e pareceu que o mundo
tinha caído aos meus pés", explicou Maria relembrando, ao mesmo tempo,
o primeiro dia em que entrou no estabelecimento prisional pela
primeira vez num dia de visita. "Foi horrível, se no primeiro impacto
o mundo pareceu cair, naquele momento caiu por completo, na medida em
que me senti sem forças para continuar", desabafou confessando, ainda,
que nunca imaginou na vida aquele momento "tão doloroso". Conta quem
já por aí passou que ao passar da porta que faz a ligação do exterior
ao interior do edifício "tudo gela e parece escurecer". A altura de
ver o familiar sem liberdade pela primeira vez naquele espaço é uma
"mistura de sentimentos". João salienta que naquela hora pensou
"porque fizeste aquilo? Nós não merecíamos? Podias estar em liberdade
e agora vais ficar cá a pagar pelas asneiras".
Porém, desde o primeiro minuto foi ponto assente destas famílias
apoiar e acompanhar os seus familiares. "Todos erramos na vida e
alguns têm desses momentos com maior gravidade ao ponto de chegar até
aqui, mas se não os acompanharmos quem o fará?", questionam. Por outro
lado, todos garantem que é uma vida dura desde o primeiro minuto da
detenção. São várias as preocupações. Para além de toda a tristeza da
interrupção da liberdade e da rotina das visitas semanais, acresce a
preocupação com o bem-estar e com o futuro. "Penso muitas vezes como
vão ser os momentos pós-liberdade", afirma Anabela (nome fictício),
cujo primo se encontra detido há bastantes anos. "Hoje em dia, ainda,
constatamos que é difícil a reinserção dos cidadãos ex-presidiários na
sociedade", conta explicando que esta tem sido a sua maior
preocupação. Sobre a aceitação salienta, também, que a própria família
é por vezes desconsiderada só por ter um familiar na prisão. "Essas
situações é que nos fazem sentir ainda pior e mais revoltados com a
vida", continua.
A prisão preventiva é algo muito comum no nosso país. Os cidadãos que
passam por este tipo de detenção, por pouco tempo que seja, ficam com
mazelas para sempre. E claro está os seus familiares não escapam
também. O facto de terem que encarar os estabelecimentos prisionais e
a frieza das quatro paredes pode alterar o comportamento em pouco
tempo. Nestes casos a revolta pode, ainda, ser maior, na medida em que
a prisão é preventiva e não há nada em concreto sobre o futuro.
Épocas festivas
As épocas de festa são complicadas para estas famílias. A prisão
vivida no dia-a-dia faz com que os momentos festivos passem
despercebidos. O Natal acabou de passar e o ano novo está à vista. No
entanto, se para alguns cidadãos a época natalícia passou num ápice,
para algumas famílias com familiares detidos a época nem se fez
sentir. "Natal? O que é isso? Já não sei o que é a festa da família há
cinco anos", disse o João ao "Matosinhos Hoje" com uma voz trémula. Ao
lado Maria já com as lágrimas a escorrerem-lhe pelo rosto pálido
concordou acrescentando que "gostava de adormecer e acordar com o meu
filho em liberdade. Nessa altura festejava tudo o que não fiz até
agora. Perante uma situação destas não tenho vontade de comemorar o
que quer que seja, pois falta qualquer coisa para que me possa sentir
bem e em condições para festejar".
Cármen Silva adianta que este Natal foi a casa dos familiares, mas não
foi um Natal como os outros. Com o filho mais velho preso há dois anos
confessa que tem sido uma rotina e uma tristeza. Porém, frisou que os
seus netos são os que mais sofrem. "O pai não acompanha o crescimento
dos filhos como é o normal e os filhos não podem ter aquele carinho
próximo do lar como gostariam de ter do pai", lembrou. Em relação aos
reclusos e à sua época natalícia, os seus familiares revelam que "lá
dentro não há troca de presentes, mas sim de gestos".
Realidade matosinhense
Em Matosinhos, metade dos 950 reclusos do Estabelecimento Prisional de
Custóias está em prisão preventiva. O estabelecimento apresenta uma
taxa de sobrelotação de 35 por cento, acolhendo mais de 200 indivíduos
do que a capacidade estabelecida. Esta radiografia foi feita durante
este mês no dia da visita do presidente da Câmara às instalações, no
âmbito do Mês da Solidariedade e de uma iniciativa do Lions Clube de
Matosinhos. Entre a actual comunidade contam-se muitos jovens com
idades compreendidas entre os 18 e os 20 anos. Apenas alguns números
para que se possa imaginar o número de famílias em contacto directo
com esta dura realidade.
Por outro lado, há um elevado número de presos preventivos, ou seja
cerca de 500. Narciso Miranda nessa altura chegou a afirmar que "estas
situações demonstram que alguma coisa esta muito mal na Justiça. As
reformas são inevitáveis e urgentes para que Portugal deixe de ser o
país com a taxa de prisão preventiva mais alta na União Europeia.
Para breve, o concelho de Matosinhos terá em funcionamento mais um
estabelecimento prisional. O Estabelecimento Prisional Feminino do
Norte, em Santa Cruz do Bispo entra em funções no próximo dia 3 de
Janeiro. As novas instalações terão a capacidade para 350 reclusas,
passando a acolher cerca de 30 mulheres que estão actualmente na
cadeia de Custóias e mais 200, naturais da zona Norte, mas detidas na
cadeia de Tires, na Região Sul. "Será um salto qualitativo para as
famílias para que fiquem mais próximas". A construção orçada em 25
milhões de euros arrancou em 2001 e apesar dos atrasos vai finalmente
ser inaugurado.
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